MEMÓRIAS - A Manaus da minha infância - Parte I

Para mim é muito difícil perceber o quanto Manaus mudou nesses últimos tempos.
Ainda hoje minha memória me leva a sentir o cheiro do vapor quente subindo dos paralelepípedos da rua em que morávamos, a Luiz Antony, por detrás do Colégio Dom Bosco. Esse cheiro sempre subia logo depois da chuva. Bons tempos aqueles.
A Manaus de minha infância ainda irradiava resquícios de brilhos dos tempos áureos da borracha com ruas arborizadas com mangueiras e benjaminzeiros bem podados com seus calçamentos de paralelepípedos reluzentes de granito, e pavimentadas com calçadas de blocos de mármore de cantaria portuguesa. Esse material empregado em harmonia com a arborização exuberante, fazia um efeito invejável no clima, pois não havia esse calor infernal de hoje em dia.
As casas do centro eram casarios germinados, ao estilo europeu, com porão baixo, com portas e janelas com arcos frisados decorados ao estilo art nevoau, exibindo lindas sacadas com grades de ferro com desenhos complexos, obra de artistas renomados vindos da Europa. Morei em uma dessas casas na década de 70, à rua Lobo Dálmada número 451. Infelizmente muitas dessas casas/obras de arte, já ruíram pela força das intempéries, ou foram derrubadas, e o que é pior, para no lugar, construírem prédios de simetria sem nenhum valor artístico e sem nenhuma atratividade, como foi o caso incompreensível do Cine Guarany destruído, para construir no lugar um banco/caixa quadrada sem graça.
Na Manaus de minha infância, o clima ameno nos convidava a dormir com as janelas abertas, sem ventilador e sem ar condicionado, janelas abertas e escancaradas sem grades de ferro, pois naquela época, não havia a marginalidade e a violência amedrontadora dos nossos tempos. Tarde da noite, tínhamos que nos “embrulhar” da cabeça aos pés, para evitar que o friozinho da madrugada nos maltratasse. Talvez esse fenômeno se desse pela proximidade da mata virgem que abraçava a pequena cidade, pacata e aconchegante, fazendo-a ter um clima confortável e agradável. Logo cedinho de manhã acordávamos com o canto melancólico dos galos dos quintais da vizinhança, despertadores naturais fiéis, para pularmos da cama, tomar banho com água “congelada” de camburão, tomar café e participar do culto doméstico. Ainda hoje, ressoam, provindos dos recônditos secretos da memória as estrofes do hino “bem de manhã, embora o céu sereno, pareça um dia calmo anunciar” que cantávamos com voz roufenha de quem tinha acaba de acordar. Depois zarpávamos para o colégio. Eu a Necil, para o Grupo Escolar Princesa Isabel e o Tony e o Alé para o colégio Estadual. Tudo era pertinho, a gente ia à pé para todo canto.
Justiça se faça, ainda hoje se conservam alguns poucos traços dessa Manaus da minha infância, como a preservação dos benjaminzeiros em várias ruas, como os das avenidas Getúlio Vargas, Ramos Ferreira, entre a rua Tapajós e a praça da Saudade, mas somente isso. Para onde a cidade expandiu não existem árvores nas ruas e o que derrubaram de árvores na cidade, de trinta anos para cá, não está no almanaque.
Ao meu ver, Manaus deveria ser conhecida como a cidade das alamedas com ruas com túneis verdes de árvores e um parque ecológico em cada esquina. Uma cidade em expansão, progredindo sim, mas com uma infra estrutura urbanística séria que viesse a manter a cidade com clima agradável sempre, principalmente durante os seis meses de calor, o que está longe de acontecer! O que se vê e se sente na pele são ruas e ruas peladas, totalmente despojada de árvores. Você deixa o carro na rua, quando volta tem que enfrentar um calor insuportável de 70 graus centígrados dentro de nossas estufas sobre rodas!
Hoje temos sérios problemas de congestionamento, mesmo com todos os viadutos e passagens de nível já construídos.
Manaus da minha infância, quanta saudade! Queria te ver de novo em toda a sua graça e exuberância! Como não posso, contento-me em sonhar para sempre te ver como eras!
Comentários
Parabéns, pelo texto tão vívido que nos move, involuntariamente, nos reportando à essa maravilhosa época sem grandes preocupações.
Realmente esse retrato de manaus é um sonho. Cresci no interior (Tabatinga) e esse texto me fez lembrar que era assim mesmo (guardada as proporões claro). Belo texto. Parabéns, alias este blog é demais..sempre tem alguma surpresa!
mt bonito esse texto.
Sentar com meu Pai vez ou outra e ouvir como era fantástico morar nesta cidade é um imenso prazer e nos dá inveja.
Recordar é viver...