sexta-feira, 15 de maio de 2009

MEMÓRIAS - A Rua de minha Infância



Quando dei por mim como pessoa racional, portanto, já lembrando de fatos históricos de minha vida, já morávamos à rua Luiz Antony, número 27, ao lado da entrada da Vila Vitória, a uns 30 metros da entrada do Bairro do Céu. Nossa casa ficava por detrás do Colégio Dom Bosco. Era uma rua calma, com muitos casarios antigos de tempos prósperos atrás. Haviam mangueiras centenárias perfiladas nas calçadas, de ponta à ponta.
Nossos vizinhos do lado esquerdo, eram a dona Mercedes, professora particular que me ensinava matemática, morava ali bem pertinho, na Calçada Alta, e mais próximos, o dr. Caitete, e contígua à nossa casa, a bondosa e risonha dona Nenê, que falava engraçada em tom espaçado e vagaroso. Todos os dias após o almoço, ela e mamãe batiam o maior papo por cima do muro do quintal que ficava atrás de nossa casa. Do lado direito, do outro lado da vila, ficava a casa de dona Juju Bananeira, ótimos vizinhos. Mais abaixo, na esquina da entrada do Bairro do Céu, morava o Carlinhos e suas duas irmãs, garoto inteligente, inventivo, amava música a tal ponto de confeccionar sua própria bateria (mais tarde viria a ser baterista oficial do Conjunto Blue Birds por muitos anos). A casa dele era um imenso galpão (hoje é uma igreja Deus é Amor), ao lado do igarapé. Uma vez ele construiu sua própria canoa, Com quilha, bancos e calafeto. Durante o período da enchente, as águas do Rio Negro enchiam o porão da casa dele e era quando ele e meus irmãos mais velhos saíam para se aventurar, remando e pescando na parte mais larga do igarapé, já nos limites do grande rio. Mais tarde, traziam para casa vários “peixes ornamentais”, os quais mamãe imediatamente despejava no esgoto do pátio, não sem antes dar aquela bronca nos garotos empolgados.
Nossa rua contava com duas tabernas e comércios que nós meninos, tínhamos que parar na hora o que estávamos fazendo para comprar guaraná, fósforo, velas, condimentos, e outros produtos de urgência. A venda do seu Sandoval ficava na esquina da rua Pe Estélio entre o estádio General Osório (hoje Colégio Militar) e o Colégio Dom Bosco, rua que ornamentava gigantescas palmeiras imperiais no canteiro central. Do lado esquerdo do estabelecimento do seu Sandoval morava o seu Dantas, um velhinho de uns 90 anos, que passava a tarde sentado em sua cadeira de embalo, e quando passávamos, soltava traques de variadas sonoridades, fato que levava a meninada a estorar de tanto rir e contar uns para os outros entre risos e gargalhadas. No extremo oposto, na esquina da rua Pe Otghisland (que dava acesso à praça da prefeitura), ficava a taberna do seu Luís. Falo dessas casas de venda, porque era uma alegria irmos várias vezes ao dia comprar alguma coisa, pela riqueza das vozes e cheiros provindos do movimento da rua, vendo e ouvindo os que por ali passavam.
Havia muitos vendedores que circulavam em nossa rua e suas imediações. O cascalheiro que batia seu triângulo, som estridente que se ouvia longe, o piruliteiro segurando um cabo comprido com um tabuleiro na ponta com furos onde os pirulitos coloridos eram encaixados, o carvoeiro que nos enchia de pavor por sua figura medonha, com um saco de sarrapilha enegrecido às costas cheio de carvão, com roupas negras e um capuz que escondia o rosto sujo (os mais velhos ameaçavam: se não obedecer, vou chamar o carvoeiro!). Naquele tempo muitas casas ainda eram munidas de fogão à lenha e ferros de passar roupa movidos à carvão vegetal. O garrafeiro quando passava, delatava logo sua presença pelo som musical dos vidros batendo uns nos outros dentro da grande caixa no carro que empurrava. Ele comprava vidros de remédios vazios, de perfumes e garrafas de refrigerantes em geral. Outro vendedor bradava seu ofício: Amolador! Amolador! Aí as donas de casa, traziam suas tesouras, podadeiras, facas e ferramentas variadas que necessitavam amolar. Tinha também o leiteiro com seus grandes recipientes de flandes cizentos (eu gostava de ver e ouvir o som do liquido branco encorpado sendo derramando nas panelas que colocavam na calçada pra encher), o peixeiro que vinha à frente propagando seu produto, com o auxiliar equilibrista com seu tabuleiro repleto de peixes frescos no alto da cabeça vindo atrás, o mascate, vendedor ambulante que puxava uma carroça/vitrine com produtos multi-variados de armarinho, botões, presilhas, colchetes, colibris, dedais, caixas de costura, feicho eclair(s), fazendas, roupas e muito mais. O verdureiro, com sua aparição quase circense, vindo em sua carroça repleta de verduras e frutas coloridas, puxada por um cavalo beje todo faceiro. Também transitavam outros vendedores ambulantes como os padeiros, os rala-ralas, os engraxates, os vassoreiros, picolezeiros, vendedores de quebra-queixo, e muitas outras honradas profissões circulavam por ali, cada qual com seu jeito peculiar de chamar a atenção dos fregueses para seus preciosos produtos, triângulos, sinos e gritos prolongados que ecoavam, quando ainda nem dobravam a esquina.
Com uma rua assim, pululando de vida, de cheiros, vozes e cores, quem não gostava de sair, nem que fosse pra ir à taberna comprar um maço de cheiro-verde ou uma caixa de fósforos?
Isso acontecia na Manaus da minha infância, capturada nas dobraduras da memória, não muito tempo atrás...

4 comentários:

Alexandre Silva disse...

Vivenciei cada segundo dessa nossa magnífica vida ali na Luis Antony. Muito boa vizinhança, amigos de fato, amizade comprovada pelo tempo. Lendo teu conto me encho de nostalgia, boa, de lembranças sem fim. Obrigado, por nos lembrar com tanta propriedade a felicidade de uma época que não volta, mas, que enche-nos de saudades.

Marilena Silva disse...

Acho que só ficar na janela observando o movimento já seria uma aventura e tanto.

Edjane Macedo disse...

Nossa q memória heim? Fiquei pensando agora, o q minha filha vai contar da infância dela? Que vivia em cima da cama assistindo desenhos ou na frente do computador jogando?
Uma pena que hj não podemos deixar nossos filhos na rua brincando por medo da violência e outras coisas,uma pena mesmo...

Valdir Franca disse...

Cara, que onda!!!! O cascalheiro??!!!! deu agua na boca de lembrar! Quando visitar Manaus gostaria de encontrar com vc brother..
Grande abraco