quinta-feira, 11 de junho de 2009

MEMÓRIAS - Férias na Vila do Careiro



Lembro que durante o período das férias grandes e às vezes no mês de julho, ou nos dias de carvaval, passávamos na Vila do Careiro. Foram momentos inesquecíveis de pura aventura.

Na Vila do Careiro havia uma grande praça, cercada de casas de vereneio de um lado e do outro, cujos proprietários eram comerciantes e empresários em Manaus. No centro da praça com calçadas que perpassavam uma imensa área verde com flores diversas, havia um igrejinha com uma cruz na torre principal e mais abaixo, um chafariz de bronze no vértice central das calçadas.

Era ao redor desse chafariz que a moçada sentava na bacia vazia aredondada, e onde o Tony e o Alé tocavam violão, e juntamente com os primos e uma gama de amigos, mais ou menos uns trinta, que vinham para passar as férias conosco, entoavam canções memoráveis que ecoavam na noite silenciosa de céu limpo de miríades de estrelas cintilantes, e que até hoje lembro das letras:
...“Meu amor está tão longe de mim, meu bem não seja tão ruim, escreva-me uma carta meu amor, e mande-me outro beijo por favor”...
“...Estou guardando o que há de bom em mim”...
“...Por onde for quero ser seu par”...
”...Aquele beijo que te dei, nunca nunca mais esquecerei, na noite linda de luar, lua testemunha tão vulgar”... “e muitas outras músicas inesquecíveis eram cantadas, como as dos beatles, e do Renato e seus Blue Caps.

Meu pai era funcionário do Banco do Brasil e como tinha muitos amigos, conseguia que ficássemos nessas casas durante as férias. Eram casas com varandas amplas, onde colocávamos redes e nos divertíamos com muitas brincadeiras.

Me lembro que quando íamos ao Careiro nas férias, especialmente no mês de julho, por causa do rio que começava a baixar suas águas, tínhamos que enfrentar nuvens de carapanãs e tomar o maior cuidado para não engolir centenas deles, goela abaixo. Lembro que éramos imcumbidos de coletar estrume de vaca na estrada, para depois queimar e usar a fumaça como inseticida que espantava as nuvens desses insetos vorazes por sangue.

Lembro que em certas manhãs, saíamos bem cedinho, todos com copos na mão, e fazíamos uma longa caminhada através de uma estrada estreita que ligava a vila do Careiro ao Cambiche, um paraná estreito que tinha muitas fazendas de gado. Parávamos na fazenda do seu Zezinho, naquela época, prefeito do Careiro, e no curral, os vaqueiros enchiam nossos copos com leite mugido, tirados da teta da vaca na hora, e tomávamos ali, espumejante e bem quentinho. Depois, meus pais compravam leite, manteiga e queijo frequinho, feitos na hora, e voltávamos pela estrada de volta à vila. Depois tomávamos aquele café com leite delicioso, antes de começarmos nossas atividade e brincadeiras do dia.

Guardo na memória cenas impressionantes de tempestades violentas que enfrentamos diversas vezes em travessias perigosas nos rios Negro e Solimões. Houve um desses fatos ocorrido na costa do Catalão, uma bacia que se alargava formando um verdadeiro oceano. Foi nessa parte do rio, que as águas, que já se encrespavam naturalmente na hora do vento geral, começaram de repente a se agitar rapidamente, o céu foi pincelado de cor de chumbo enegrecido e o vento furioso varria a superfície do rio produzindo grandes ondas que arremetiam com força contra o barco! Nessa hora de grande aflição geral, minha mãe e a tia Branca, ficavam juntinhas orando fervorosamente e cantando os hinos “Mestre, o mar se revolta” e “Seguro estou, não tenho temor do mal”. Mamãe também gostava de repetir nessas horas a frase: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia dessa tua serva!". E assim, em meio a clamores e orações, o motor venceu bravamente passo à passo as vagas encapeladas, e conseguiu chegar a salvo no outro lado odo rio!

Uma dessas tempestades nos tomou de supetão, quando atravessamos o rio Solimões pro “outro lado” no pequenino motor do seu Zezinho, o “Cidade do Careiro”, para comprar frutas e verduras. Na volta, o tempo fechou, e as águas perigosas do rio Solimões se encresparam e deram com ímpeto contra o barquinho que navegávamos. Depois de lutar fortemente contra as ondas bravias, pôde-se finalmente divisar em meio à neblina cinza e da chuva forte, o flutuante com a propaganda política pixada na parede: “Careirense só vota em careirense”. Era o cais do porto da vila. Estávamos salvos.

Outra experiência ruim com os perigos no rio, foi quando voltávamos da Vila do Careiro, depois de passarmos os quatro dias de carnaval. Quando já tínhamos atravessado a costa do Catalão, em frente ao paraná do Xiborena, caía uma chuva fina, o céu acinzentado, mas o rio se mantinha sereno, sem ondas, quando de repente, o motor bateu em uma camuflada“ cabeça-de-jacaré, um gigantesco tronco submerso que ficava só com uma pontinha sutil na superfície da água escura, tal qual os icebergs. Só havia um tripulante à bordo que servia de maquinista e timoneiro, e ainda por cima estava “cheio da cana”, de sorte que quem assumiu o timão foi o tio Veloso. O impacto abriu um rombo no casco do barco e começou a fazer água em abundância. Eu, menino, tomei um susto danado, e quando me aproximei do alçapão da casa das máquinas, vi que lá embaixo a água já dava na cintura dos homens que tentavam retirar a água com latas de querozene, mas não estavam sendo bem sucedidos nesse mister. Minha avó Antonina, mulher prática e sábia, reuniu todo mundo e começou a distribuir objetos que flutuavam, latas vazias, vasilhas de plástico, nos fazendo segurar fortemente contra o peito, esperando que o pior pudesse acontecer. Nessa altura do campeonato, quem estava na direção do barco era um piloto bastante inexperiente: meu pai! Com toda boa vontade, ele direcionou o barco em direção à margem do Rio Negro, e acabou por esboroar em uma jangada enorme que repousava na extenção da entrada do Xiborena. Enquanto o motor adernava lentamente sobre o bordo esquerdo, fomos retirados rapidamente e levados para um grande flutuante/armazém que ficava ali perto. Lembro que meu pai, que estava retirando a nossa bagagem e a transferindo para o flutuante com outros homens, vinha com uma carga grande nas costas, e como o tronco da jangada estava molhado e escorregadio, caiu entre os troncos, mergulhando nas águas negras do rio, mas graças a Deus, logo emergiu e pode voltar para cima da tora.
Depois de muito sufoco, tivemos que esperar horas seguidas, encharcados, sentados sob o abrigo coberto, até passar um motor de linha e nos levar todos, sãos e salvos para Manaus.

Pra terminar, mais uma história sobre perigo de vida no rio Solimões. Lembro que tinha uns cinco anos de idade, e de toda a molecada descer para o flutuante que servia de cais, na frente da vila. Ali todos se jogavam nas águas barrentas, em meio à forte correnteza do rio. Eu ainda não sabia nadar, mas me jogava com uma bóia na cintura, da ponta do cais e descia a correnteza, segurando na outra ponta do tronco. Numa dessas, eu pulei, a bóia saiu por cima, e aí comecei a afundar. Lembro de me debater fortemente enquanto afundava rapidamente... via a luz do sol cintilando no alto...algas se entrelaçando, a o tronco do flutuante cheio de lodo se distanciando cada vez mais, e era como se passasse toda a minha breve vida diante de mim. Aí aconteceu o milagre.
Meu pai mergulhou como uma flecha e por baixo, me empurrou violentamente para cima, então, meu primo Manequita, viu minha mãozinha de afogado se agitando na superfície, e me puxou com toda a força para cima da plataforma do abrigo. Quase ia desta, para melhor!

Lembranças entrecortadas rementem meus pensamentos a cenas de meus irmãos galopando sobre cavalos brancos e marrons em um campo por trás da vila, de longos passeios em trilhas estreitas margeando o rio Solimões, os carrapichos e as “Maria-fecha-a-porta-que-teu-pai-já-morreu” roçando as pernas, me dando medo quando a trilha passava muito perto da beirada do barranco alto, quando grandes fatias de terra se precipitavam lá embaixo na enseada de águas marrom-escuras, formando rebojos traiçoeiros.
Retalhos de flashes rápidos em minha mente me transportam a cancelas rústicas divisando terrenos...o medo para quem de nós vestia alguma peça vermelha, de ser perseguido por algum boi mal humorado...alamedas sombrias de engazeiros, grandes mangueiras...fila de jambeiros de copas fechadas, embaixo, sob os pés, raízes das árvores se entrelaçando, poças enlameadas atopetadas de folhas secas apodrecidas que geravam um odor acre de terra úmida. Lembro de uma velha casa abandonada que diziam ser mal assombrada, situada no meio de cacauzeiros de copas densas, a gente passando correndo, morrendo de medo.

Foi no Careiro que tive, ainda menino, meus maiores desafios de vencer o medo, de tomar decisões, de enfrentar perigos, como aprender a nadar na marra, quando uns empurravam os outros em pleno Solimões, na correnteza perigosa.

Talvez fossem pouquíssimos os pais que concedessem tanta liberdade aos filhos nos dias atuais.

Se nossos pais nos tivessem mantido presos dentro de casa, e não tivessem nos dado tanta liberdade, também não teríamos tantas aventuras a contar!

7 comentários:

Micael Pinheiro Silva disse...

Legal que você está registrando essas aventuras da infância. São momentos únicos. O texto está fantástico. Parabéns!

markeetoo disse...

gosto do seu poder de descrição ehehe, nos vemos no meio dessas cenas. Mt boas lembranças. Não sei como vc consegue lembrar tão bem dessas paradas =]

Edjane disse...

Quem memória heim? Muito legal a riqueza de detalhes do texto, e as aventuras então, Deus do céu! Qdo pequena ia sempre ao careiro mas minha memória de lá só são os ataques dos carapanãs q não deixavam ninguém dormir e o banheiro q era uó no fundo do quintal era um verdadeiro terror usa-lo..rsrs..
Parabéns pelo texto e pela memória.

Tiago Paladino disse...

Nasci em Manaus e nunca fui no careiro.. agora deu vontade..hehe!!!

Alexandre Silva disse...

É emocionante. Fico abismado com a capacidade humana de armazenar dados com tanta perfeição. Parabéns pelo gostoso texto, que, nos reporta a uma época muito sadia e francamente feliz.Montaigne diz que os textos que lemos devem nos dar prazer; é o caso.

Marilena Silva disse...

Já ouví algumas dessas histórias algumas vezes, mas é sempre muito bom e empolgante, fica mais legal qdo o tony e Alé estão junto e começam a atrapalhar e dizer que não é possível que tu lembres...que tá inventando... aí vira farra!heheheh

Danilo Fernandes disse...

Ola Manuel,

Ola irmãos!


Queria convidar você para conhecer o meu blog, o Genizah que horas é pirado e engraçado, horas é exaltado e sério, mas é super do bem e tem como regra levar o Evangelho da Liberdade Verdadeira e a Santa Subversão de Jesus ao mundo egocêntrico e perdidão nos seus valores! E, ainda dando tempo, aproveito para tirar uma onda com este pessoal que anda explorando a fé das pessoas e ainda dizendo que são cristãos... Ops!

Por minha vez, já me tornei seu seguidor.

Abraços em Cristo e Paz!

Danilo


http://genizah-virtual.blogspot.com/