segunda-feira, 22 de junho de 2009

O Retorno do Rei


Um dos ofícios de Jesus de Nazaré é o de Rei. Domingo passado discorri no sermão, sobre as características do Rei Jesus, quando expunha a respeito da (anti) entrada triunfal em Jerusalém.
Jesus era um rei no mínimo, excêntrico, pela natureza diferente de seu reinado.

Jesus era um rei humilde. Ele nasceu em circunstâncias bastante modestas, em um estábulo, imiscuído no meio de animais, aninhado por Maria no comedouro, tomando cuidado para não pisar no estrume fresco depositado no chão de terra batida, isso, na periferia da cidade, nas imediações de Belém.

Mais tarde, vemos Jesus dizendo de Si mesmo, que O Filho do Homem não tinha onde repousar e nem onde reclinar a cabeça, diferentemente das raposas em seus covis e das aves do céu em seus ninhos.

Última semana antes da caminhada definitiva rumo ao Calvário. Jesus não detém Seu olhar direcionado para o esplendor da cidade de Jericó, a Cidade das Palmeiras, com seus jardins exuberantes, com suas piscinas, e com a imponente construção da casa de veraneio de Herodes. Não. Ele congela seu ângulo de visão em dois cegos mendigos quando saía da cidade, apertado por uma multidão de adoradores e curiosos, mas estanca sua caminhada quando ouve seu clamor incessante, e cheio de compaixão, os toca e os cura plenamente. Agora ele toma o rumo em direção da cidade Santa.

Conseguindo um jumentinho emprestado, os seus discípulos colocam suas túnicas forrando como uma cela improvisada e o povo espalha suas capas e túnicas fazendo um tapete multicolorido sem fim pelo caminho. Esse rei excêntrico vai entrar em Jerusalém montado em um jumentinho, um animal de carga, e não em um puro sangue, em um cavalo branco como os imperadores constumavam montar em seus festivais que celebravam a vitória do império sobre os povos vencidos.

Shane Claiborne, em seu livro Jesus For President (não traduzido ainda para o português) nos esclarece com propriedade:
“Jesus montou em um jumento na Páscoa. Lembre que a Pascoa era um festival judeu Anti-Imperial no qual os judeus celebravam a saída de seus ancestrais da escravidão do Egito. Com soldados romanos enfileirados nas ruas, os judeus se reuniam e balançavam folhas de palmeiras, símbolos da resistência ao império.
A Pascoa era um momento tenso, normalmente marcado por revoltas e derramamento de sangue. (Lembre que Antipas matou milhares de judeus nas ruas durante o festival.) Quando Jesus montou um jumento e entrou no festival, era como uma sátira, como um teatro de rua em forma de protesto. Estudiosos chamam de entrada anti-triunfal em Jerusalém. Imagine o presidente dirigindo um monociclo na parada de 4 de julho. Reis não montam jumentos. Eles montam poderosos cavalos de guerra acompanhados por soldados. Então aqui vemos Jesus fazendo um espetáculo de violência e poder, montado em um burro. (E um burro emprestado!)”.

Muitos arrancavam folhas das palmeiras e das damasqueiras ao redor e as agitavam numa incomum coreografia coletiva e entoavam, radiantes, cânticos de livramento diante de Jesus:
“Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!”.

Mas esse rei excêntrico, é também quebrantado.
Quando Jesus chega perto da entrada da cidade, e avista, de longe, Jerusalém em toda sua glória e imponência, Ele chora. Se comove em suas entranhas e seu coração se enternece. Ele não se impressiona com a arquitetura de seus prédios, não fica impactado da Cidade de Ouro ser o símbolo maior do poder religioso com o seu majestoso templo se elevando diante de seus olhos. Não. Entreviu naquele bucólico entardecer o que normalmente ninguém vê. Ele vislumbra dois reinos antagônicos que se colidiam irreconciliáveis. O Reino dos Céus e os reinos da terra.

Quando a cidade aparece diante de seus olhos, Jesus, percebe claramente que muito do louvor que recebe da multidão que estava com Ele e da que saía aos borbotões dos portões dos muros da cidade naquela hora era superficial, e tinha por base uma identificação errada, em um messias terreno e político.

Quando seus olhos proféticos se detém na cidade lotada de gente de todos os recantos do mundo vindos para a festa da Páscoa, Jesus vê uma Jerusalém oprimida, como cidade sitiada, rodeada pelas legiões romanas.

Num gemido de amargo lamento, ele chora e exclama:

“Jerusalém. Jerusalém! A paz eterna sempre esteve ao seu alcance, ó Jerusalém, mas essas coisas agora estão ocultas aos seus olhos.
Os seus inimigos amontoarão terra contra os seus muros,
e cercarão e cerrarão fileiras contra você.
Arrasarão tudo e esmagarão os seus filhos dentro de você, Jerusalém.
E não deixarão pedra sobre pedra, por que você não aceitou a oportunidade que Deus lhe ofereceu.
Jerusalém! Jerusalém! que mata os profetas e apedreja os que lhe foram enviados!
Quantas vezes eu quis reunir seus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e você não quis!”

Mas esse rei excêntrico, apesar da trilha dura de dor, assentada de pedras pontiagudas de sofrimento inimaginável e da culminante tortura por crucificação, é um rei exaltado.
Ele desceu ao nível mais rebaixado de humilhação que um ser humano pôde suportar. Esse rei excêntrico sofreu as agruras da dor maior, a dos pecados do mundo inteiro recaindo sobre seus ombros.

Jesus foi reconhecidamente dado como morto, depositado em um túmulo nas imediações de Jerusalém, mas diz as Escrituras Antigas que Ele venceu a morte e ressurgiu triunfante.

O apóstolo Paulo encrava uma jóia rara em uma de suas cartas, introduzindo um cântico de exaltação a esse Rei excêntrico, que foi reconhecido em semelhança de homem, assumindo uma postura serviçal, sendo obediante até a morte, e morte de cruz:
“ Mas Deus o exaltou sobremaneira, para que diante do nome de Jesus se dobre todo joelho e toda língua confesse que Jesus é Senhor, para a glória de Deus Pai!”

No livro do Apocalipse Jesus surge como um poderoso cavaleiro montado em um cavalo branco. Montado sobre o que? Sim, sobre um cavalo branco. Não mais um burrinho desajeitado.
Agora Ele, adquirindo sua posição de Rei por direito, se tornou O Rei dos reis e Senhor dos Senhores. O reinado Dele é soberano e eterno sobre todo o universo, sobre toda a terra, sobre toda a igreja, e quer ser Rei sobre a minha e sua vida.

Esse rei excêntrico retorna vitorioso à glória do Pai. Ele, como homem, carrega as marcas de seu sacrifício vicário. Suas mãos, pés e lado estão com as cicatrizes dos pregos e da lança com que foi traspassado por um soldado romano.

Ele vem adentrando nas ruas adjacentes do céu. Trombetas tocam altisonantes anunciando o retorno do Rei. E acontece algo inusitado. Os portais da eternidade, diante da grandeza desse rei, se elevam, se alteiam por ser ele O Grande Rei de toda a terra.
Tudo para se cumprir o cântico antigo:

Levantai, ó portas, as vossas cabeças;
Levantai-vos, ó portais eternos,
Para que entre o Rei da Glória.
Quem é o Rei da Glória?
O Senhor, forte e poderoso,
o Senhor, poderoso nas batalhas.
Levantai, ó portas, as vossas cabeças;
levantai-vos, ó portais eternos,
para que entre o Rei da Glória.
Quem é esse Rei da Glória?
O Senhor dos Exércitos,
ele é o Rei da Glória.

Hoje, Jesus sendo nosso rei, como servos/súditos obedientes, devemos seguir seu exemplo de humildade. Como Rei Quebrantado, devemos ser sensíveis às necessidades ao nosso redor e chorar pelos motivos que Ele choraria. Como Rei axaltado e Sumo Sacerdote que se compadecee das nossas fraquezas, por Ele ter experimentado a dor humana, devemos viver modestamente, louvar a Deus pelas provações que passamos, sabedores que um dia, depois de longas noites de solidão e tremendas provas neste “vale de lágrimas”, quando adentrarmos nos átrios celestiais ouviremos essas palavras de Sua boca:

“Ao vencedor lhe concederei que se assente no meu trono, assim como Eu venci e me assentei. Quem tem ouvido ouça o que o Espírito diz às igrejas”.

5 comentários:

Tiago Paladino disse...

Maranata, Ora vem Senhor Jesus!!!

markeetoo disse...

Eu acho extremamente intrigante e subversivo esses atos de Jesus. É muito louco vc pensar num rei entrando montado num jumento. Jesus era "gaiato" com o perdão da palavra ehehe. Tem que ser muito corajoso pra fazer algo assim. Jesus não tinha medo de confrontar o status quo. Infelizmente essa característica não está muito presente no nosso meio. Vemos coisas impostas pelo "Império" que supostamente não concordamos, mas não fazemos nada pra mudar.. e muitas vezes somos condizentes com ela, amparados pela mentira de que não se pode fazer nada.
Sou fã e sou doido por esse Rei, que ensina o caminho inverso do sucesso e do poder.
Belo texto!

Edjane disse...

Que texto lindo...para refletir, e tomar como exemplo para nossas vidas, um Rei cheio de amor e humildade, faço as palavras do markeeto as minhas, sou muito fã desse Rei.

Alexandre Silva disse...

Pois é morrendo que se vive para a vida eterna. Jesus homem marcou sua época e a História com essa condição de ser Líder, de ser o Rei dos Reis, aquele que morre pelos seus, fato que sobrevive até nós e nos dá garantia de vida eterna.
Senhor tuas palavras são de vida eterna. O texto nos leva a pensar, meditar no eterno e assim cumpre o seu papel.

Anônimo disse...

AlyCampos:

Cada vez que penso nesse rei maravilhoso que se esvaziou a si mesmo e se fez homem, abrindo mão de si mesmo por nós eu fico mais impressionado.. muito bom o texto.