sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

BOA VIAGEM



Boa Viagem... Pra mim era realmente uma boa viagem, um percurso prolongado, mas absolutamente fascinante sob muitos aspectos.
Descia a Visconde de Suassuna, atravessava a Praça Treze de Maio, varando pelo centro e tomava o ônibus na Praça Joaquim Nabuco, seguia em uma viagem prolongada, mas agradabilíssima até a Igreja Presbiteriana Boa Viagem, ja no terminal da linha. Última parada, Praça de Boa viagem.
Às vezes, chegava um pouco mais cedo propositalmente, descia do ônibus, atravessava a avenida, sentava em um banco no calçadão ou me encostava em um coqueiro na areia, e ficava ali, sentindo o vento úmido do mar, refrescando as idéias, vendo as ondas verdes baterem na areia da praia, relaxando, olhos fechados, usufruindo da paisagem, a retina direcionada fixamente no horizonte longínquo que trazia aos poucos o manto escuro da noite.
Depois adentrava pelas portas da Igreja Presbiteriana de Boa Viagem, que iniciou seus primeiros trabalhos em uma casa na Av. Conselheiro Aguiar. De lá, Lembro bem das famílias generosas que cuidavam de mim, me paparicavam, me convidando para almoços e refeições monumentais, verdadeiras festas de Babette, após uma semana “penando” no seminário, degustando as repetidas receitas de Dona Raimunda e equipe, servindo o arroz koinonia, o macarrão fariseu, e o frango skilab, carbonizado (que nem o laboratório espacial), tostado até demais. Graças a Deus, diria o leitor, não seja ingrato, mas dava muitas graças a Deus pela vida generosa de Dona Elza mãe do Marcos Rino, do casal Eliaquim e Ivonete Sá, da Dayse, Gilson e Denise filhos de um homem simples, coração aberto, o seu Sebastião que nos acolhia tantas vezes em Caruaru, da Denise e Nicole, todas famílias abastadas de Boa Viagem que nos presenteavam (era eu e o Djard, amigo de longas datas de Manaus, que depois foi também para o seminário, e lá, compartilhava comigo o quarto mais completo e sofisticado, com direito a tevê pretro e branco, prancheta de desenho e liquidificador para as vitaminadas das dez horas da noite), não só com uma comida gostosa, mas com uma tremenda hospitalidade. Às vezes, pernoitávamos nessas casas e saíamos bem cedinho na segunda feira de volta pra o seminário.
Da igreja, as lembranças retrocedem aos cultos animados dirigido pelo saudoso pastor João Campos, na época pastor interino, mas com um grande dinamismo fez um “auê” tal que a igreja expandiu rapidamente a olhos vistos.
Lembro do lindo coral jovem dirigido pela eficiente Heloíza, muito paciente com todos nós com sua voz carregada de meiguice, mas temperada com determinação. Lembro dos componentes: Denise, Nicole, Hilda, Kiria, Kesia, Kênia, Geane, Dayse, Clara, Karla, Fabio, Elisio, Tonico, João e eu, fazendo parte do tenor, juntamente com o Cremildo, o Mauro, Moisés e o André. Ensaiávamos aos sábados à tarde, e cantávamos nos culto do domingo. Era divertido e ao mesmo tempo prazeroso participar dos ensaios. Lembro de um musical intitulado Celebração da Vida produzida pelo compositor Buryl Red que chegamos a apresentar em igrejas e em Caruaru. Lembro do repertório, quando cantávamos negros espirituais (“chegamos ao céu e não podemos sentar”) e lindas canções como Oh, happy Day e Volta ao Lar do grupo Som Maior, bem nostálgica, e que modéstia à parte, as executávamos com muita harmonia.
Nessa época fundei um quarteto vocal masculino cujos componentes eram o Mauro, o André, o Beto e eu. Também compusemos um grupo de meninas, com a Kiria, Kênia, Hilda e Denise, cantando músicas da comunidade S8 e composições de autores manauaras, e de tantos outros grupos de vanguarda naquela época.
Recife, cidade que me recebeu de braços abertos, como aberto é o coração de teu povo, me deste sete anos de pura felicidade, foste motivadora de grandes emoções, me impulsionaste a vida madura, me ofertaste um tempo de descobertas fascinantes e conquistas de um jovem franzino cheio de carências afetivas que foi impulsionado por ti aos desafios do final de uma etapa importante nos estudos, à busca do que queria e poderia ser, às venturosas incursões românticas, e às caminhadas na praia em noites de luar refletindo no mar banhado de luz prateada, e vento acariciando o rosto, desenhando pegadas indefinidas na areia, marcando indelevelmente a consciência com o vislumbre de um futuro fantástico para um jovem sonhador que iria enfrentar a vida de proa, e mesmo assim sobreviveria às potentes procelas como um feliz passageiro do tempo.

4 comentários:

markeetoo disse...

Massa demais lembrar de experiencias assim. Deu vontade de voltar a Recife ehehe.

Micael Pinheiro Silva disse...

São muito legais esses post de memórias. No final, dá pra juntar tudo num livro.

Gui disse...

Esse ventinho na praia é muito gostoso. Nunca fui a igreja d Boa Viagem, só na do Pina - Pr Daniel Dantas.
Acho muito legal essa narrativa detalhada, até os nomes das ruas, hehehe.
Saudade do meu Recife. Sou apaixonado pelo centro dessa cidade.
Continua Manel!

socorro disse...

Incrível é possuir sensibilidade para ler além do que se está escrito.
Titulo perfeito.Fiz uma "Boa Viagem".