terça-feira, 14 de dezembro de 2010

NOITE DE NATAL



Desde o início do mês de dezembro,todos os anos o clima natalino ainda me encanta. Sei, você vai dizer que tem muito comércio, propaganda enganosa, aproveitadores e estratégia manipuladora no Natal.
Mesmo assim. E isso vem de muito tempo atrás. Dos tempos de menino. Essa magia nunca se desprendeu das dobras da memória do tempo.
Lembro das casas do centro da Manaus antiga iluminadas com cores vivas, pisca-piscas multicoloridos, os pés de loucura e bougavilles lotados de bolinhas que piscavam loucamente sem parar.
Lembro das músicas natalinas que ecoavam das casas e das lojas. A avenida Eduardo Ribeiro era o centro dos eventos da cidade, tudo acontecia lá, desfile da semana da pátria, carnaval, comemorações em geral, e quando meus pais nos levava à noite para passear, enfeites luminosos pendiam dos postes de iluminação, as árvores nas ruas cintilavam com múltiplos pisca-piscas e das lojas decoradas repercutiam as músicas dedilhadas na harpa de Pappi Galan, e lembro frases espassadas das canções da época: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel, “Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dá”, “jingle bell”, “Querido Papai Noel, endereço, céu”, reverberam ainda hoje em minha mente, e que teimam ainda buscar lampejos dispersos na memória tateando tempos de inocência e pura magia de uma infância feliz.
Lembro das peças teatrais de Natal na Primeira Igreja Batista de Manaus, templo antigo, que eram primorosamente preparadas na direção do talentoso Ulysses Pimentel, que propiciava uma sensação de interação com o público que parecia que a gente entrava em uma máquina do tempo e voltava aos tempos bíblicos, vendo o presépio, os reis magos se inclinando reverentemente e entregando seus tesouros ao rei menino. Uma das cenas mais impressionantes que assaltava em meu coração infantil era quando o “ator” Ozias Monteiro interpretando o rei Herodes, levantava do trono e batia com força o seu cetro real no chão de madeira do pequenino palco do salão social da igreja, ele, todo aparamentado, coroa reluzente na cabeça, e bradava: esse trono é meu, é meu e ninguém me toma! A garotada, lá em baixo, na primeira fila engolia em seco, e tremia amedrontada.
Mas encerrando aqui minhas parcas memórias natalinas, reservo o espaço para falar da noite de natal na nossa casa, na rua Luiz Antony. Minha mãe, Nadehyde, desde cêdo labutava na cozinha, preparando os quitutes que seriam servidos na ceia de Natal. O cardápio geralmente consistia no peru assado com farofa crocante, maioneze, e aquele arroz soltinho que só ela sabia fazer, tudo regado a guaraná , servido bem geladinho. O cheiro do peru assando no forno penetrava fundo em nossas narinas e quase nos fazia levitar e dançar no ar como nos velhos quadrinhos que líamos, quando o aroma era sentido e entrava pelas fossas nasais.
Depois que a gente chegada da igreja, antes da ceia, sentávamos nas sala ao redor da árvore exuberante, toda bem enfeitada com bola se enfeites coloridos, (que me perdoem os legalistas matadores da alegria)e já nessa altura do campeonato, o estômago começava a roncar, clamando para que a comida fosse logo esquentada pra gente “atacar” com fúria o repasto fumegante, para depois comer as frutas e as sobremesas deliciosas servidas nessa época.
Depois de muita música, de se refastelar como o banquete da noite e muita conversa, a gente era obrigado a dormir, se não dormir não tem presente, coisa e tal, mas não conseguiamos. Quem disse que se pregava no sono? Nossos corações palpitavam aceleradamente, tal a expectative de esperar pela manhã para abrir os presentes que eram colocados por nossos pais debaixo de nossas camas ou perto delas. Não, nós não éramos ricos, mas meus pais sempre se esforçavam ao máximo para nos dar presentes modestos, mas plenos de significação, a cada manhã de Natal. Esse sentimento de espera jamais esquecerei. Acordava e já estendia a mão sentindo a textura do embrulho e apressadamente desfazia a embalagem de pacote.
Lembro de brinquedos fantásticos que ganhei nesses dias mágicos de Natal. Charrete, velocípede, patinete, lembro de um trem elétrico verde iluminado que apitava, um forte apache comdiligência, índios e cavalos, um carro do Batman, um helicóptero que rodava a hélice, enfim, brinquedos que encantavam e nos surpreendiam ao acordar, a cada 25 de dezembro.
Depois do café da manhã, a garotada ia pra rua exibir os presentes, e mostrar aos amigos o que fazia cada brinquedo.
Depois de tanto tempo decorrido, hoje ainda sinto o cheiro diferenciado dessa época, as cores das luzes que brilham nas ruas ainda brilham diferentes, as músicas que ecoam sutilmente no ar ainda trazem a mesma sensação de paz e aconchego, o amigo oculto, o encontro com a família e amigos, o cultinho antes da ceia, tudo evoca os velhos tempos dos natais de minha infância.
Agora, por favor, não dê mais espaço para a comercialização escandalosa dos nossos dias estressantes, que induz compulsivamente as pessoas a comprarem o que não podem, e a começar o novo ano endividado até o fio do cabelo.
Nesse Natal 2010 volte a ser menino, despoje-se de toda racionalização e malícia, sem medo de ser feliz entre no clima, e sussurre para si mesmo: hummm, que cheiro bom…é Natal!

4 comentários:

markeetoo disse...

Sempre gosto de ler suas recordações porque faz a gente se sentir lá.

Quando eu era criança lembro de sentir tudo isso e conforme fui crescendo me perguntava se o natal tinha mudado ou era eu.

As vezes pareço chato trazendo a atenção do natal pro consumismo que se multiplica nessa época, o que considero nocivo, mas ao mesmo tempo não quero diminuir a oportunidade das festas pra se rever familiares e amigos, botar o papo em dia e quem sabe ser motivado a parar com essa coisa de se encontrar apenas uma vez no ano.

Natal é uma época bonita. Só temos que tomar cuidado pra não confundir com outras coisas que nada tem a ver com o natal e sufocam o que ele realmente deveria ser =]

Marilena Silva disse...

Tb amo essa época, tenho lembranças muito gostosas da infância, os cheiros são muito peculiares e as lembranças já com os meus filhos, ...a festa que era arrumar a árvore... depois qdo já estavam maiores, o "egnog" preparado pelo Markeetoo(que nem sempre dava certo, o nosso cultinho com as dinâmicas, sempre muito divertido, o amigo oculto... tem muita coisa gostosa de lembrar, pessoas que marcaram a nossa vida e já estiveram em alguns natais conosco. Realmente pra mim sempre foi uma época com muito significado.

AlyCampos disse...

Éh!! lendo este texto, lembro dos meus natais de muito tempo atrás, infância! Realmente os melhores natais eram aqueles..sempre esperando na espectativa..comilnça, familiares, brinquedos..bons tempos..momentos que apesar das detalhes do consumismo, eram de muita união! e amor!

mix disse...

Aaaaaai que delícia! Hoje em dia tem tanta gente que não gosta do natal, que acha triste... eu ahco o máximo!
Esse natal é ainda mais especial por causa do presente que ganhei do Papai do Céu, baby Kairos.