quinta-feira, 13 de outubro de 2011

feriado de outubro

12 de outubro, Sítio Bom Sossego.
Chuva persistente, gotas intermitentes salpicam o para-brisa, o céu cor de chumbo. De repente, estiagem, céu aberto, ótimo clima para se viajar. Estrada infinda serpenteando dentro da floresta (embora existam hoje muitas áreas de devastação e desmatamento criminosos). A tempestade iminente ficou para trás. No trajeto vimos fazendas e sítios passando velozmente. Depois de 80 quilômetros, parada obrigatória no café com tapioca com queijo e castanha no Rio Preto. Tucumã estava em falta. Esticar de canelas, mais estrada. 72 quilômetros a mais, chegamos ao sítio Bom Sossego. A noite caía célere, em frente ao portão, a buzina insistente. Através das brechas da cerca, podia-se ver a alameda de coqueiros bem iluminada e a casa de madeira envolvida num véu de escuridão, parcas lâmpadas acesas na área da cozinha. Fomos enfim recebidos pelo Marcio e pela Lania. Já haviam desistido de nos esperar. Depois de pormos nossa bagagem no assoalho de um dos quartos, fomos ver as melhorias na cozinha externa atrás da casa, agora com chão cimentado, permanecendo a mesa grande de madeira, o forno de lenha e o jirau. Ao longe, ouvia-se o balido dos cabritos debaixo de sua proteção.
Começam os movimentos para mais um café. Sentamos ao redor da mesa da cozinha da casa e compartilhamos uma refeição composta de pão, manteiga, queijo coalho fresquinho, pamonha, tapioca, leite de gado e café. Os que usufruíam do banquete foram eu, a Lena, o Marcio, a Lania e a Duda. Após o jantar, conversa e novela (nunca tinha visto a tal da Fina Estampa), aguardando o jogo amistoso do Brasil com o México. Não resisto à tentação e leio avidamente entre uma conversa e outra, a HQ Daytrippper de Fábio Moon e Gabriel Bá, de tão ansioso que estava, aguardando a versão em português. De manhã havia comprado na Saraiva. O jogo foi sofrível. Muito talento individual e pouco entrosamento de equipe. O pior: por causa da falta de opção pela transmissão ser via antena parabólica, fomos obrigados a ver o jogo pela globo e ainda por cima aguentar o suplício de ouvir a voz irritante e os comentários sem noção do Galvão Bueno. Ao final, o Brasil ganha o jogo, dois lindos gols de Marcelo e Ronaldinho. Mais tarde, eu e o Marcio deitamos em redes na varanda. Clima bom e de graça. Mais leitura esperando o sono chegar, mas apegado ao enredo da história, ficava difícil dormir. Minha atenção indireta capta os sons da noite, grilos, sapos, cantos de pássaros indefinidos que se difundem ao longe, e o arrepiante canto das guaribas. Lá pelas tantas, o galo garnisé insiste em começar a cantar com seu cocoricó esganiçado, já pelas três da matina.
Consegui dormir enfim, mas meus olhos sofrem certa perturbação... Que luz é essa que incide sobre a varada? Acordo atordoado, quando olho por cima do pé de sapoti, vislumbro uma lua cheia, qual holofote iluminando tudo, o terreno coberto de prata. Mas consegui conciliar o sono até acordar às seis e meia. Depois só fazer a manutenção, rolando de um lado para o outro até chamarem para o café matutino.
O café foi posto sobre mesa rústica na cabana atrás da casa. Leite de gado, pão esquentado com manteiga derretendo. Manhã preguiçosa, deitado na rede lendo, papeando, cochilando. La pelas dez da manhã chega um carro. Saem Dona Francisca, a Maristela e o Neto. Carregam sacolas cheias, com muita comida para somar ao almoço. Eu, quase um vegetariano não comendo carne vermelha há muito tempo, me contentei em comer pacu na brasa, com farinha e molho de tucupi com pimenta, acompanhado por suco gelado de caju tirando do pé. Destrinchei dois suculentos caracídeos actinopterígios do rabo à cabeça, usando as mãos e não os educados talheres...
Depois do banho de mangueira, aí pelas duas e meia da tarde, nos despedimos e retomamos a estrada rumo à cidade estressante. Como gosto de dirigir na estrada, sem compromisso ou pressa, não foi nada sacrificial. Seis e meia, na boquinha da noite, já estava deitado em minha cama, checando e-mails e vendo o jornal da noite. Feriado revigorante.

5 comentários:

Tony disse...

Muito legal, escreves bem tio.

markeetoo disse...

Muito bom.
Habilidade descritiva apurada! Parece que eu tô assistindo tudo isso acontecendo ehehe.
Meu feriado foi de acordar tarde, almoçar na Mical e depois pegar nos freelas ehehe.

AlyCampos disse...

belo texto.

Marilena Silva disse...

É sempre delicioso dormir no sítio do Marcio. O papo sempre é bom demaisssssssss.

Gui disse...

Caraca, isso é uma aula de Narração Subjetiva com todos os pormenores e variantes do processo, o fato, os personagens, o ambiente... Show de bola, se tivesses escrito esse texto no primeiro semestre do ano quando eu estava no 2 período da facul, eu teria tirado nota 10,0 na prova de Português instrumental.
Valeu Manecão!
Agora, dá pra por favor esclarecer o que danado é "caracídeos actinopterígios"???
Se não fosse o (Ctrl C / Ctrl V) eu levaria uns 10 minutos pra digitar isso. hehe
Abraço