quarta-feira, 23 de setembro de 2009

PREGO ECOLÓGICO - Uma projeção do crime ambiental em Manaus



Ontem dirigia por uma rua de Manaus e como sempre, o tráfego estava super congestionado. Mas havia um motivo maior para o caos se instalar mais problematicamente naquela hora. Um carro pregado. Passei ao seu lado e pude perceber curioso, um ramo verde de folhas pendurado no pára-choque traseiro do automóvel danificado.
Fiquei pensando de onde surgiu essa observância do amazonense, de por um galho para indicar que o carro está no prego. Já havia visto motoristas de ônibus e caminhões se utilizarem desse expediente, mas não os de um carro comum de passageiros.
De uma forma ou de outra, alguns motoristas estão substituindo o convencional triangulo vermelho por um galho de árvore de ramos verdes para indicar que houve algum problema de motor e para indicar que os outros carros devem passar livremente.
Pensei comigo mesmo se esse costume não seria resultado de um brado incontido, um grito ecológico inconsciente sufocado no peito, uma forma de protesto enclausurado no coração do manauara por nossa cidade ser tão destituída de árvores nas ruas.
Continuei viajando: ...”humm, isso só pode ser um poderoso inconsciente coletivo advindo do desejo latente do povo anelar ter uma cidade mais verde, mais aconchegante. Bom, talvez não seja nada disso, mas para mim o raminho verde se tornou um símbolo e reflexo do descontentamento do descaso ambiental em Manaus e na Amazônia.
A propósito desse assunto, compartilho aqui um fato que revela que ainda há gente valorosa em nossa terra. Uns dias atrás vendo um jornal local na TV, fiquei admirado ao ver na reportagem meu vizinho, o Sergio Cordeiro, proprietário de um lanche na Rua Acre, vi-o agitado, todo suado, chorando copiosamente, gritando a plenos pulmões, com uma corda ao redor do corpo e amarrado a uma árvore. Detive-me com mais atenção no que se passava, e pude me inteirar dos fatos. Em frente à sua lanchonete havia uma mangueira, árvore frondosa, uma das pouquíssimas árvores de calçada existente nas redondezas.
E você acredita que um funcionário da Sedema estava lá para cortar a árvore? Pois é, pensei com você: Absurdo dos absurdos! E o Sergio sozinho, fez seu protesto. Ele está corretíssimo. Se cada amazonense tivesse metade da coragem e do interesse desse moço pela preservação do meio ambiente, Manaus seria outra.
E o motivo de serrar a mangueira era dos mais “nobres”: Estão construindo em frente à lanchonete, um mini-shoping e por isso o dono mandou cortar. Sabe esses mini-shopings mal projetados, que proliferam nas ruas da cidade, e que tem dezenas de lojas vazias por não ter ninguém que pague o aluguel exorbitante? Foi por isso.
Hoje passei lá pra me solidarizar com o Sergio. Circulei ao redor do local do crime ambiental. Estava lá o cepo lavrado. Só aparece agora o toco serrado. E mais uma árvore cortada em uma rua de Manaus. Que tristeza!

Você pode achar isso uma besteira, é só uma arvorezinha besta, etc. Mas quando isso atinge dimensões irrefreáveis, quando são milhares de hectares devastados pelo fogo, você também não se toca.
Parabéns, Sergio. Você se lançou bravamente em defesa da mangueira amiga, patrimônio do povo, plantada por gente conhecida, árvore que insistia fielmente em seu mister de prover sombra e frescor aos que estacionam perto dela ou se abrigavam debaixo de sua copa.
Isso aconteceu em uma cidade anômala, estranhamente despojada de verde em suas ruas, no entanto, encravada na maior floresta tropical do planeta.
Às vezes é preciso presenciar um prego ecológico para refletir e por fim assumir atitude...

6 comentários:

Anônimo disse...

AlyCampos:

Esse episódio realmente foi muito triste. O pessoal como sempre só vai parar pra pensar quando a coisa ultrapassar os límites e não tiver mais retorno. Eu queria não ser nagativo, mais o capitalismo comercial tá arrebentando com tudo, o lucro é o que importa!! Dale burrice!! Que aumente o calor!!!

Rodrigo disse...

Que triste... As vezes dá vontade de dizer tanto num comentário, mas "que triste" diz tanto como estamos em relação a tal coisa.
O homem é o lobodo homem.

markeetoo disse...

Queria ter visto essa cena e me amarrava na árvore junto com o brother aí. O povo de Manaus é no mínimo burro. Dá muita raiva de ver a galera arrancando as poucas árvores que tem na cidade. Centros urbanos que nem precisavam são mais arborizados que Manaus.
É engraçado que quando eu estou correndo na Av São Jorge é perceptível a diferença de clima quando vc tah correndo do lado de muros e de repente chega a frente do CIGS, todo arborizado... instantaneamente vc começa a sentir o ar mais fresco do seu lado....

Edjane Macedo disse...

Lamentável, se todos agissem como esse senhor iria evitar mais a derrubada de árvores conseqüentemente morar em Manaus seria mais prazeroso, indo ali pelas bandas do p. das laranjeiras vejo aqueles conjuntos bonitos, mas todos sem arborização, o q torna o lugar um forno. Acho q essa conscientização deveria começar na escola, ano passado vi uma campanha no Carrefour onde eles estavam dando mudas de plantas e árvores para as pessoas e pouquíssimas iam lá pegar..uma pena ...essa falta de costume achando q depende de políticos para melhorar é q torna as coisas mais difíceis, se cada um fizesse a sua parte, ia melhorar e muito.

Marilena Silva disse...

Eu fiquei muito triste, até pq achava bem interessante como as pessoas se agregavam debaixo da mangueira, no fim ano passado os jogadores de dominó que se reuniam debaixo dela, enfeitaram-na toda... ficou cheia de cartões e luzes, achei aquilo muito legal. Agora eles tiveram que se mudar para o outro lado da rua, mas não parece tão aconchegante... Marilena Silva

Danilo Fernandes disse...

Loucura!

Não vou a Manaus tem 25 anos. Se alguem disser a um paulista que Manaus é uma cidade de poucas arvores, ninguem acredita!
Claro que não se trata de uma visão gringa e esteriotipada da região, mas afinal é AMAZONIA!

Danilo

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