terça-feira, 22 de abril de 2014

areia monazítica

Caminhava longas distâncias com meus pais, irmãos e primos pelas trilhas estreitas de terra que conectavam a casa onde ficávamos durante as “férias grandes” e a Vila do Careiro. Durante a caminhada, o mato roçava nas pernas, as folhas de urtiga feriam a pele como finíssimas lâminas que faziam cortes minúsculos que coçavam e irritavam, só parando pra bater nas folhinhas das “Maria fecha a porta, que teu pai já morreu”, transpúnhamos cancelas rústicas, passávamos por cacauais com copas densas que faziam grandes sombras com seus troncos escuros fixados em terrenos encharcados, cujas raízes serpenteavam e confundiam a mente pueril saturada de histórias de cabocos sobre cobras grandes e de qualquer tamanho, sentia a brisa do rio batendo e o cheiro terroso do humos da lama e o aroma enjoativo das frutas apodrecidas espalhadas pelo chão, e via passar velhas casas abandonadas (e assombradas) com suas cercas distorcidas, cenas que povoavam meu universo de criança.
Numa dessas caminhadas, uma conversa de meu pai com o resto da turma chamou minha atenção, chegando a bater um medo inconsciente, não sabia exatamente de que. Era sobre um tipo de areia que existia na beira dos barrancos e pequenas praias que se formavam nas enseadas do rio barrento. Quando o sol incidia sobre a areia, miríades de pontos brilhantes  faiscavam cintilantes.
 — Só pode ser areia monazítica. Dizia meu pai. A ideia de ser areia monazítica ocupou seu foco de interesse durante aqueles dias. Parece-me, que meu pai até chegou a levar uma porção da dita areia a Manaus para ser examinada em laboratório. Só que as informações sobre a areia misteriosa vinham à minha mente de forma fragmentada, e para a visão de criança, só restava o sentimento de medo. Nos altos de meus nove anos de idade, era como algo misterioso cujo nome soava como “nazista”, e se era radioativa, ligava a bomba atômica e à assombrosa terceira guerra mundial...brrrr!
Mas hoje eu sei. Ora, areia monazítica é um tipo de areia rica em minérios como o fosfato, com forte conteúdo radioativo e tais areias possuem efeitos terapêuticos, sendo utilizadas no tratamento de artrites e inflamações uma vez que, espalhada sobre a pele, produz uma radiação que estimula os tecidos e favorece o fluxo sanguíneo na região afetada.
 Aqui fica a lição. Pais, avós e educadores em geral, quando forem referir-se a um assunto complexo, e tiverem crianças presentes por perto, façam uma versão interpretativa e facilitadora do tema falado para que consequentemente não se fixem no imaginário infantil imagens de medo baseadas nas coisas que dizem... como falar da tal areia monazítica.

2 comentários:

Tony Cruz disse...

Interessante as associações criadas com palavras que se ouve pela primeira vez. Marcam de modo inesquecível. Assim como você , as vezes lembro do nome da pessoa e a ocasião em que a palavra foi pronunciada e por ser estranha e nova se soma ao vocabulário mais facilmente. Inda mais no mágico Careiro.

alex L7 Dual P-716 disse...

Pastor,tudo bem?o senhor poderia entrar em contato comigo?queria uma orientação.
shaw_222@hotmail.com